CARNAVAL EM ALEXANDRIA

Mas o que imprime a sua marca ao Carnaval, o seu espírito enganador, é o dominó de veludo – conferindo aos que o usam o anonimato a que todo o homem aspira no fundo do seu coração. Tornar-se anónimo, no meio de uma multidão anónima, sem revelar nem sexo, nem origem, nem mesmo a expressão do rosto – porque a máscara deste hábito de frade louco só descobre dois olhos, brilhando como os olhos de uma muçulmana ou de um urso. Nenhum traço identificador; nem mesmo o contorno do corpo se desvenda. Seios, coxas, faces – tudo desaparece. E escondido sob o hábito carnavalesco (como um desejo criminoso no coração, uma tentação irresistível, um impulso que parece predeterminado) jaz o germe de qualquer coisa: de uma liberdade que o homem nem sequer se atreve a sonhar. O mascarado sente-se livre de fazer o que lhe aprouver. Todos os crimes impunes da cidade, todos os casos trágicos de confusão de identidade, são o fruto do Carnaval; e por outro lado muitas aventuras de amor se atam e desatam nesses dias em que nos libertamos do selo da personalidade, da servidão das nossas pessoas. Uma vez dentro da opa de veludo, a mulher perde o marido, o marido perde a mulher, o amante a bem amada. (…) Mas engano-me numa coisa – há um elemento que vos permite identificar o vosso amigo ou inimigo: as mãos.

In Baltazar de Lawrence Durrell (Quarteto de Alexandria)

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LIBERDADE

A liberdade é a liberdade. Não há liberdade verdadeira porque não há liberdade falsa. Nisso se parece com Deus. Falsos deuses também é expressão viciosa.

O despotismo e a licença não são liberdade verdadeira, nem falsa. São a negação absoluta do princípio livre. Partem do mesmo ponto, descrevem arcos iguais como a circunferência de um círculo, e vão reunir-se complacentemente com admiração dos tontos e justo desprezo dos menos lerdos.

In VASCONCELOS, Teixeira de – O Prato de Arroz Doce, p. 45

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MONTANHAS

Tu continuas a subir montanhas. E cada vez que te aproximas do cume, extenuado, pensas que é a última vez. Quando chegas ao fim, quando a tua excitação se acalmou um pouco, ficas insatisfeito. Quanto mais o cansaço se apaga, mais cresce a tua insatisfação, contemplas a cadeia de montanhas que ondula a perder de vista e o desejo de escalar apodera-se de ti. As que já subiste já não têm qualquer interesse, mas tu estás persuadido que por trás delas se escondem outras curiosidades cuja existência ignoras. Mas quando chegas ao cume, não descobres nenhuma destas maravilhas, só encontras o vento solitário.

Ao longo dos dias, adaptas-te à tua solidão, subir as montanhas tornou-se uma espécie de doença crónica. Sabes perfeitamente que não encontrarás nada, só foste levado pela tua cegueira e não paras de trepar. Neste processo, evidentemente, tens necessidade de algumas consolações e deixas-te embalar pelas tuas quimeras, crias as tuas próprias lendas.

In GAO XINGJIAN, A Montanha da Alma, Dom Quixote, p. 477

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Sentir então os seus beijos, felizes e espontâneos, que começavam a compor em torno de nós uma obscuridade, como camadas sucessivas de cor.

In Justine de Lawrence Durrell (Quarteto de Alexandria)

Sara Malta
Sara Malta

GRITOS MUDOS

É mais fácil o pessimismo. Como é mais simples libertar a raiva; deixá-la sair de nós poupa-nos a antidepressivos e a achaques graves. Mas o mais fácil leva-nos por caminhos ínvios. Se soubesse o segredo para libertar o aladino da lâmpada, pedir-lhe-ia gotas para tornar o olhar puro – tento e volto a tentar, mas os progressos são lentos e demasiado humanos. Mas quando o conseguir, quando o meu olhar for cristalino, tudo o mais o será. E não haverá necessidade de gritos mudos.

In Luís Osório – Só entre nós. – Chiado Editora, 2012, p.99

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SOMOS DIFERENTES HOJE, OS DO PORTO

 

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O Porto já era uma cidade liberal antes do liberalismo, não só nos aspectos administrativos ou políticos, mas sobretudo no pensamento e comportamento da sua população industriosa, comerciante, orgulhosa da sua autarquia e dos seus privilégios seculares de independência face às classes aristocráticas. (…)

Muita água correu junto ao cais e aos varadouros onde se aparelhou a armada de Ceuta. Muitas gerações se esgotaram em tantas vidas diferentes desde essa época, mas a memória, o sabermos que nesse tempo estávamos desse lado, constrói a nossa identidade.

Somos diferentes hoje, os do Porto, porque nesses momentos remotos estivemos lá, onde importava que estivéssemos, e digo estávamos porque hoje nos identificamos com os antepassados que estiveram.

Rui Ramos Loza In Porto: a dimensão intangível na cidade histórica. – Porto Património Mundial, 2002