MONTANHAS

Tu continuas a subir montanhas. E cada vez que te aproximas do cume, extenuado, pensas que é a última vez. Quando chegas ao fim, quando a tua excitação se acalmou um pouco, ficas insatisfeito. Quanto mais o cansaço se apaga, mais cresce a tua insatisfação, contemplas a cadeia de montanhas que ondula a perder de vista e o desejo de escalar apodera-se de ti. As que já subiste já não têm qualquer interesse, mas tu estás persuadido que por trás delas se escondem outras curiosidades cuja existência ignoras. Mas quando chegas ao cume, não descobres nenhuma destas maravilhas, só encontras o vento solitário.

Ao longo dos dias, adaptas-te à tua solidão, subir as montanhas tornou-se uma espécie de doença crónica. Sabes perfeitamente que não encontrarás nada, só foste levado pela tua cegueira e não paras de trepar. Neste processo, evidentemente, tens necessidade de algumas consolações e deixas-te embalar pelas tuas quimeras, crias as tuas próprias lendas.

In GAO XINGJIAN, A Montanha da Alma, Dom Quixote, p. 477

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