KAFKA

Franz Kafka nasceu em Praga há 130 anos, no seio de uma família burguesa de origem judaica. O pai, Hermann Kafka, tinha uma loja de artigos de luxo na Rua Celetna, perto do gueto. Kafka tinha três irmãs: a mais nova, Ottla, era a sua favorita. As irmãs irão mais tarde ser vítimas dos campos de extermínio e, se Kafka estivesse vivo na altura, e se permanecesse em Praga, teria tido muito provavelmente o mesmo destino. Franz sentia-se um estrangeiro junto da família, com quem partilhou casa quase toda a sua vida e de quem se queria emancipar. O pai teve a responsabilidade maior do filho se sentir assim. Era uma figura autoritária, um homem que subiu pelas suas próprias mãos, de uma pobreza extrema para a situação pequeno-burguesa em que se encontrava, e que, por conseguinte, tinha uma ideia elevada de si mesmo. Franz sentia medo do pai e desde pequeno vai carregar uma culpa sempre presente que não mais o largará. O pai não poupava o filho quanto às suas supostas imperfeições e mantinha com ele uma relação pouco afetuosa. Kafka e as irmãs são criados por governantas, pois até a mãe estava bastante ocupada a ajudar o marido na loja. Kafka irá dizer que o pai é a razão principal de ele escrever e vai enviar-lhe a célebre Carta ao Pai, que não chegará às mãos paternas por interferência da mãe Julie. A família Kafka [Kafka significa gralha em checo e esta ave foi o símbolo dos negócios do pai] pode ser vislumbrada n’A Metamorfose, onde o seu herói, Gregor Samsa, vive encurralado num quarto à margem de todos, como um inseto repugnante e incómodo. A metade humana e sensível de Gregor é ignorada, assim como a arte de Kafka é vista com desdém pelo seu pai. A solidão une autor e personagem.

flores para Kafka #1
flores para Kafka #1

O refúgio de Franz vai ser a literatura, que ele amava mais do que a tudo. Se é que podemos dizer que Franz tinha um refúgio. Nas palavras de Milena Jesenská [o seu amor cristão e impossível. Milena não quis abandonar o seu casamento na altura]: Todos nós, aparentemente, conseguimos ir vivendo porque, num dado momento, somos capazes de nos refugiar na mentira, na cegueira, no entusiasmo, no optimismo, numa convicção absorvente, no pessimismo ou não importa o quê. Mas ele não tem asilo protector algum. É absolutamente incapaz de mentir, como também é incapaz de se embriagar. Não tem o menor refúgio, o menor abrigo. Por isso está permanentemente exposto àquilo contra o que nós estamos protegidos. É como se fosse um homem nu no meio dos vestidos. A literatura vai dar significado à vida solitária de Franz Kafka. Escrever vai estar sempre em primeiro lugar, mesmo que signifique desistir de vencer a solidão. Kafka três vezes irá tentá-lo através de noivados que serão desmanchados por ele mesmo quando se apercebe que o casamento lhe trará uma amputação da autonomia e liberdade para a escrita. Só no fim da curta vida, morre com quase 41 anos, terá uma relação feliz e que lhe aponta a possibilidade de conciliar essa vida comum com a literatura. Será tarde demais, a doença que o vitimiza já tinha feito avanços intransponíveis. A tuberculose foi implacável, apesar de ter sido acolhida por ele com serenidade e até alegria, ao ver nela uma forma de se libertar do trabalho burocrático que tinha e que lhe roubava tempo, e de se libertar também do casamento anunciado com Felice Bauer. A desculpa perfeita para romper como terá dito ao seu amigo Max Brod.

flores para Kafka #2
flores para Kafka #2

Não nos enganemos, contudo, pois enquanto Kafka esteve a exercer a sua profissão [tinha-se licenciado em direito] no edifício do Instituto de Seguros para Acidentes de Trabalho, em Praga, foi quando este Instituto fez mais progressos no sentido de evitar esses mesmos acidentes, devido ao trabalho e estudo meticuloso de Franz Kafka sobre as máquinas que provocavam os acidentes e ao acompanhamento de perto desses processos de melhoria nas condições de segurança. Há relatos que nos mostram também um Kafka humanista, preocupado com a situação real dos seus colegas de trabalho, frequentemente emprestando-lhes dinheiro e recusando-o de volta. Mesmo assim, Franz foi uma alma solitária, que se colocava a uma distância reservada dos outros.

flores para Kafka #3
flores para Kafka #3

Distância que não o impede de estar atento às correntes e sintomas do seu tempo, que irá espelhar na sua obra. A Checoslováquia vivia nesse tempo sob a égide do Império dos Habsburgos. Estava ocupada. N’O Processo, n’O Castelo, Na Colónia Penal e noutras estórias vamos incluso encontrar prenúncios do pesadelo que dominou a Europa mais tarde. Kafka, com o seu sentido de humor [o humor era umas das forças que possuía para mobilizar e renovar as suas esperanças], terá sido um visionário. Incómodas, as suas estórias apontam caminhos sem saída, trágicas na impotência dos seus heróis face a uma máquina de poder, distante, inacessível e incompreensível, esquizofrénica e implacável, kafkiana. O Mal assume muitas faces e procura os frágeis até na sua identidade mais forte, como a profissão e o dever deontológico em Um Médico Rural.

flores para Kafka #4
flores para Kafka #4

Celebremos a vida e a obra de Kafka, e celebremos o facto de um dos seus poucos amigos, Max Brod, não ter destruído os seus escritos ainda não publicados, como ele o teria instruído antes de morrer. Kafka morre a 3 de junho de 1924, no Sanatório Hoffmann, sem concretizar o seu projeto de emigrar para a Palestina com Dora Diamant. Última companheira de sonhos e da relação harmoniosa do final de vida em Berlim. Longe da casa paterna. Mas durou pouco, o fim aproximava-se num passo célere.

flores para Kafka #5
flores para Kafka #5

Tendo Kafka uma educação alemã, vivido na Checoslováquia ocupada, falado checo e alemão, mas escrito na língua do opressor que era a sua, e sendo judeu, grupo perseguido na Praga daquela época, reuniram-se nele as condições propícias ao isolamento social porque não era alemão, não se sentia checo e nem judeu, e de facto não estava comprometido com nenhum grupo social de Praga. Só mais tarde irá ganhar curiosidade sobre as suas origens judaicas, não tanto quanto às tradições e rituais, mas no que concerne às ideias e aos mitos, sem, no entanto, aderir ao judaísmo completamente. Que tenho eu em comum com os judeus? Mal chego a ter algo em comum comigo mesmo. Esta frase não reflete totalmente a complexidade dos sentimentos de Kafka, mas numa carta a Milena, mais tarde, dirá que talvez fosse ele o mais típico de todos os judeus ocidentais na sua eterna inquietação. Simpatiza com o movimento sionista, até na sua vontade de evasão para a Palestina, para um lugar onde não sentisse o ódio. Kafka refere-se muitas vezes a si próprio como alguém com mais idade do que a de vida, que explica com o facto de ser judeu.

flores para Kafka #6
flores para Kafka #6

O seu racionalismo intelectual solitário, acostumado a todas as dúvidas, não facilita a adesão a nenhum sistema de compreensão único. Não é que Kafka tenha gosto em ser cético, pelo contrário, sabe que a verdade existe, que ela é uma só e que a maior glória de um escritor é a de procurar dizê-la. Porém, como diz numa carta a Milena: é difícil dizer a verdade, pois existe apenas uma verdade, mas ela é viva, e, por conseguinte, tem um rosto que está sempre a mudar. E se não bastar para a ilustração desta sua posição, a personagem principal do seu conto Um Artista da Fome diria por ele: sou obrigado a jejuar, porque nunca encontrei comida que realmente me agradasse.

flores para Kafka #7
flores para Kafka #7

Despedimo-nos de Franz Kafka, para novamente o encontrarmos na sua obra, nos seus romances, nos seus contos, nas suas cartas, nos seus diários. Em tudo que a sua pena tocou. Todos contribuem para levantar o véu sobre o extraordinário homem que era, mesmo com todas as suas fragilidades e talvez mesmo por causa delas, encontramos um bocadinho de Kafka em nós.

BIBLIOGRAFIA: FAYE, Éric – K. [Pergaminho]

                       KONDER, Leandro – Kafka : vida e obra [Paz e Terra]

                       MAIROWITZ, David Zane; CRUMB, Robert – Kafka para principiantes [Dom Quixote]

                       WAGENBACH, Klaus – Kafka [Círculo de Leitores]

Anúncios