DOIS PASSEIOS, UM LUGAR

Freixo #1

Este verão tem sido de trabalho, como vai sendo hábito acabo por escolher tirar férias fora de época balnear. O sol chama por nós e seguimo-lo fiéis até ao possível, os passeios. Este ano descobri que se pode caminhar junto ao rio, do lado do Palácio do Freixo e da antiga e nova fábrica Moagens Harmonia. É bastante agradável, encontramos pessoas: a relaxar como nós, a correr, andar de bicicleta, passear os cães, os filhos… e o rio, a água faz o seu papel, tranquiliza-nos e transporta-nos para fora do nosso quotidiano.

Freixo #2

A criação das Moagens Harmonia remonta ao séc.XIX. 1890 é o ano em que os estatutos da futura companhia são lavrados em notário. A 1 de Março deste mesmo ano a Quinta do Freixo, com o seu palácio, é comprada pela sociedade anónima que pretende moer cereais. Em 1891, junto ao Palácio do Freixo a nascente, é construído o edifício onde irá laborar a fábrica. Porém, só em 1898 é registado o alvará concedido a C.W. Ehlers para montar a dita fábrica de moagem de cereais Harmonia, da Quinta do Freixo.

Freixo #3

Em 1918, a Cª. em assembleia geral decide dissolver-se e a 15 de Maio vende todos os seus bens e valores a um conjunto de comerciantes e capitalistas do Porto, o que incluía a Quinta do Freixo e respectivos edifícios, mas também o recheio: o mobiliário, as máquinas, os utensílios. Além do próprio nome, da marca por assim dizer. A 17 de Junho surge assim uma nova sociedade para explorar a fábrica.

Freixo #4

Mais adiante, em 1923, a Cª. Moagens Harmonia contrata um novo moleiro: Theodor Appelt vai dirigir a moagem, e o Palácio vai ser a sua residência. Este Palácio, hoje uma pousada, foi erguido pelo cónego D. Jerónimo de Távora e Noronha, o homem responsável pela vinda de Nicolau Nasoni para o Porto. É um belíssimo exemplar da arquitectura civil barroca em Portugal. Foi executado por Nasoni em meados do séc.XVIII e  merece um artigo independente.

Freixo #5

Sinal de crescimento, em 1932 a Moagens Harmonia solicita ao arquitecto Júlio de Brito a construção de mais dois pisos. Crescimento que vai ditar também novos trabalhos em 1952, quando se iniciam as obras para a expansão de novos silos na margem norte da Estrada 108. Progressivamente as Moagens transferem-se para as novas instalações, concluídas em 1958. Em 1966, novo licenciamento de construção. Novo edifício defronte da velha moagem. Em 69 o antigo edifício e o Palácio estão vazios, na antiga fábrica funciona apenas a cantina, e algumas salas são utilizadas como armazém.

Freixo #6

Em 1984, o IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional) adquire o Palácio do Freixo e as antigas instalações da Cª. Moagens Harmonia. Em 1993, é constituída a AMCI (Associação para o Museu da Ciência e Indústria), entidade fundada pela Câmara Municipal do Porto e pela Associação Industrial Portuense. São cedidos os espaços da antiga moagem e do Palácio do Freixo à Câmara Municipal do Porto, que contrata o arquitecto Luís Tavares Moreira para intervir nestes espaços com o intuito de albergar as 2ªs Jornadas de Arte Contemporânea (1993).

Freixo #7

A Câmara Municipal do Porto estabelece um protocolo com o Ministério do Equipamento, Planeamento e Administração do Território, em 1999, em que assegura a transferência da propriedade do Palácio do Freixo e das Moagens Harmonia para a autarquia, com a finalidade da futura instalação do Museu da Ciência e Indústria na antiga fábrica.

Freixo #8

No âmbito do projecto Metropólis, Fernando Távora assina o restauro do Palácio do Freixo (palácio e antigas instalações da Cª. Moagens Harmonia). Estes trabalhos desenvolveram-se entre 2000 e 2003. Em 2009, a Câmara Municipal do Porto cede ao Grupo Pestana este património para a instalação de uma pousada, uma das maiores Pousadas de Portugal, a Pousada do Freixo.

Freixo #9

Ao longo do percurso pedonal passamos por outro local com relevância histórica, o edifício onde foi assinado o célebre acordo que punha fim à guerra civil da Patuleia (1846-1847): a Convenção do Gramido. Materializada a 29 de Junho de 1847.

Freixo #9

Caminhamos. Olhamos o rio. Vemos os seus habitantes mais seguros.

Freixo #10

Vemos também aqueles que como nós passam, sentem e seguem. Sem dúvida um local a regressar mais vezes para além destes dois passeios.

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