CARDAL DO DOURO

Cardal #1

Um dos meus refúgios é este lugar e hoje sinto precisamente a saudade do seu ritmo mais lento, da sua paisagem escarpada, junto ao rio, ou da mais doce do planalto mirandês; do enquadramento seguro do rio Douro enquanto caminhamos naqueles montes, dos cheiros, tão peculiares numa conjugação feliz de todas as plantas daquela região de Tràs-os-Montes.

Cardal #2

Sinto também falta de um tempo para o sossego das leituras e para o afastamento do buliço da cidade. Andar nesse enquadramento, renovar as minhas forças e a possibilidade de ser feliz, de querer bem ao que me rodeia e a mim própria.  Tenho a sorte do mundo por ter um lugar destes à minha espera.

Cardal #3

O Cardal do Douro insere-se no Parque Natural do Douro Internacional. Este tem uma área com cerca de 860 km2 e situa-se ao longo dos vales dos rios Águeda e Douro. Abarca os concelhos de: Figueira de Castelo Rodrigo, Freixo-de-Espada-à-Cinta, Mogadouro e Miranda. O Parque estende-se um pouco para o planalto mirandês que se desenvolve entre o vale do Douro Internacional e o vale do Sabor.

Cardal #4

Geologicamente falando encontramos esta zona dividida em duas: granito no norte e xisto, desde a Bemposta até à zona sul de Lagoaça, Freixo-de-Espada-à-Cinta e Barca d’Alva; algumas manchas de quartzitos e xistos quartzíticos pontuam o terreno.  O solo vai ter depois reflexos na mancha florestal do Parque.

Cardal #5

Outra influência é o clima [mediterrânico-subcontinental] de acentuadas amplitudes térmicas: invernos frios, estios quentes e secos. Esta não é uma região de grande pluviosidade, mesmo no inverno.

Cardal #6

O planalto é aberto e ventoso, o vale, abrigado e bem encaixado nas encostas íngremes e escarpadas.

Cardal #7

O carvalho pardo ou carvalho negral abraça o planalto mirandês e gosta de terras frias; já a azinheira e o sobreiro, mediterrânicas, preferem as encostas dos vales, mas em solos mais férteis são acompanhadas pelo carvalho cerquinho, uma raridade e preciosidade da flora ibérica.

Cardal #8

Nas encostas mais escarpadas e pedregosas encontramos o zimbro da mesêta, pequena árvore que produz umas pseudobagas aromáticas e que em locais extremos de pedregosidade não deixa que mais nenhuma quercínea penetre, formando bosques que são típicos do vale do Douro Internacional e do vale do Sabor: os zimbrais.

Cardal #9

No planalto podemos observar folhas de cerealicultura e lameiros [prados naturais, integrados em clareiras de carvalhais ou de freixêdas, que são a base da alimentação do gado bovino mirandês]. As freixêdas são linhas de árvores arranjadas como sebes e que têm a função de abrigo. As árvores que as compõem: carvalhos, freixos, ulmeiros, lódãos. Em anos rarefeitos as folhas destas três últimas servem também de alimento para o gado no verão.

Cardal #10

Os mortórios do Douro vinhateiro têm origem em vinhas mortas pela filoxera há um século atrás. O mato invade as vinhas e frequentemente é acompanhado por zimbros e azinheiras de porte acarrascado.

Cardal #11

Para acabar, gostava de invocar os baracejos, uma gramínea alta que pode atingir dois metros de altura e que tem o aspecto de capim tropical. No planalto mirandês associa-se a um pequeno arbusto espinhoso, algo raro em Portugal, a caldoneira. Esta associação denomina-se de Stipetum.

E fico-me hoje por aqui. Pois à medida que escrevo estas coisas também aprendo com elas e olho para a paisagem que me acolhe de forma mais próxima. Saber nomear algo faz a sua diferença.

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