SINTRA E MONSERRATE

Sintra é singular e merece várias visitas, pelo muito que tem para descobrir. São quintas com casas e jardins belíssimos. A própria atmosfera romântica que por lá se vive, a construída pelo homem e a que o clima propicia. Uma zona de intensos nevoeiros que acendem dentro de nós vagos medos, histórias fantasmagóricas e trágicas contadas à luz da lareira. Aquele ambiente na noite em que chegamos, quando calcorreamos uma estrada secundária e estreita na direcção das praias, sem iluminação, bordejada por árvores e casas imponentes que apareciam de surpresa na curva.

Jardim #1

No dia seguinte voltamos à mesma estrada e não nos arrependemos. Monserrate foi a primeira paragem, a Quinta da Regaleira a segunda. E tudo o resto que não vimos ficará para uma próxima ida, porque sim, temos que lá voltar.
Jardim #2

Monserrate: a história de Monserrate remonta à época mourisca do nosso país. Um cavaleiro moçárabe, do qual não sabemos o nome, vivia onde hoje se situa o Palácio. Morre em duelo com o alcaide do Castelo dos Mouros e foi sepultado junto de sua casa pelos seus amigos cristãos, tornando-se alvo de veneração como mártir. Neste local, após a reconquista pelo D. Afonso Henriques, é erigida uma ermida dedicada a Nossa Senhora.

Jardim #3

Mais à frente, no séc. XVI, a propriedade de Monserrate pertencia ao Hospital de Todos-os-Santos em Lisboa. Em 1540, o superior deste hospital, padre Gaspar Preto, foi em peregrinação à famosa capela da Virgem Negra de Montserrat situada no maciço montanhoso da Catalunha perto de Barcelona, onde Santo Inácio de Loyola teve a inspiração de fundar a Companhia de Jesus. Gaspar Preto constrói nova capela sobre a outra e dedica-a à Nossa Senhora de Montserrat. Uma imagem (já desaparecida) da Nossa Senhora Negra em alabastro foi trazida de Roma para o local.

Jardim #4

Em 1601, o Hospital aforou a propriedade à família Melo e Castro, à qual pertencia o 36º vice-rei da Índia e que acaba por adquiri-la em 1718. Foi mantida na família durante 4 gerações. Este morgado foi mantido até 1863, altura em que Francis Cook compra Monserrate. A lei que ditava a inalienação dos morgados tinha sido revogada.

Na segunda metade do século XVIII, o Romantismo disseminou-se por toda a Europa. A Natureza indomável, a solidão e fascínio pela evasão do homem perante esse espectáculo que o transcende ditaram o destino de Monserrate. Dois ingleses abastados, em conjunto com a família Cook mais tarde, intervieram significativamente na Quinta.

Jardim #5

Gerard  DeVisme e William Beckford. O primeiro, descendente de nobres huguenotes e conhecido filantropo de Lisboa, fez fortuna com a importação do pau-brasil, monopólio que lhe concedeu o Marquês de Pombal. Aluga a Quinta comprometendo-se a beneficiá-la: aumentar os pomares, restaurar as construções em ruína. Foi ele que edificou o primeiro palácio neogótico português sobre a antiga capela e erigiu a capela noutro local.

Jardim #6

Os 9 anos desta relação iniciaram o processo que transformou uma pequena propriedade rural num jardim romântico anglo-português, que circunda um palácio extravagante e bizarro do séc. XIX, de inspiração mourisca (Alhambra) e neogótica. O arquitecto desta primeira estrutura neogótica foi William Elsden. Um edifício comprido com uma torre de ameias quadrada ao centro e torreões redondos nas extremidades. Embora DeVisme tivesse uma queda para a agricultura, a sua permanência foi curta e por essa razão a marca que deixou no jardim não foi grande. No entanto, o sistema de irrigação que utiliza a água da nascente através de canais em terracota (telhas sobrepostas e dirigidas para locais precisos), inspirado num outro sistema árabe utilizado em Portugal desde o séc. VIII, é da sua autoria e a capela neogótica perto da cascata, que foi construída entre as árvores com as pedras de outra capela destruída pelo terramoto de 1755.

Note-se sobre a capela a árvore-da-borracha-australiana. Tem uma tendência natural criminosa pois desenvolve-se em cima de outra acabando por estrangulá-la lentamente. Neste caso a sua vítima é a capela, mas cria um cenário de ruína e decadência verosímel muito ao gosto da época.

Jardim #7

William Beckford chega a Monserrate em 1794. Autor do romance gótico Vathek (1786). Subalugou a Quinta a DeVisme. A cascata de Beckford e o falso cromeleque são fruto da sua presença em Monserrate.  Beckford organizava festas sumptuosas com a alta sociedade britânica estabelecida em Portugal. Motivo aliás de discorda com DeVisme que preferia o sossego do lugar.

Jardim #8

Não podendo comprar a propriedade, William Beckford regressa a Inglaterra em 1799 definitivamente. Na sua terra natal manda construir a Abadia de Fonthill no condado de Wiltshire. A ruína instala-se em Monserrate, que alterna períodos de magnificência com períodos onde a decadência impera.

Francis Cook resgata Monserrate deste infortúnio. Comerciante de têxteis inglês e que também fez fortuna em Portugal. Encomenda a James Knowles (arquitecto inglês) a renovação do palácio. Decide manter a casa de DeVisme mas sobrepôs à estrutura um orientalismo bárbaro construído num delírio árabe. Um palácio exótico onde os elementos neogóticos foram restaurados e fundidos com estuques, mosaicos inspirados no Alhambra, com balaustradas pilhadas durante o motim na Índia. Um edifício que teve por modelo os pavilhões de Brighton de John Nash com efeitos cénicos ao gosto da época.

Palácio

Cook percorria o jardim de burro e dedica-lhe grande parte do seu tempo e dinheiro. Comprou mais 15 quintas adjacentes a Monserrate e transforma as suas propriedades numa paisagem naturalista vitoriana.

Foi necessária muita mão-de-obra para reconstruir a casa e para remodelar e manter o jardim. Cook ofereceu assistência médica aos seus empregados e construiu duas escolas primárias para os respectivos filhos. Esse comportamento atraiu a atenção do rei, que lhe concedeu o título de Visconde de Monserrate.

Jardim #9

Coleccionador, decora a casa com pinturas, estátuas, mobiliário de valor inestimável. O jardim transformou-se também num cenário de outra colecção: arbustos e árvores de todo-o-mundo. Contou aqui com Francis Burt, o jardineiro inglês da propriedade de seu pai em Kent. Dividiram o jardim por zonas geográficas. Foi-nos inclusivé dito que Monserrate apresenta vários microclimas que são pensados nesta distribuição de plantas.

O seu neto, Herbert Cook, segue-lhe as pisadas e alicia um jardineiro, Walter Oates, a restaurar parte da Quinta. Estes anos 20 foram áureos para Monserrate.

Jardim #10

A propriedade é colocada à venda em 1929, ano de crise que talvez explique o facto de Monserrate ter demorado tanto tempo a ser vendida. Só em 1947 é que se efectua o negócio que inclui o recheio da casa. A ruína bate outra vez à porta de Monserrate. O comprador, Saul Saragga, especulou com todos estes bens, inclusivé com o chumbo do telhado. Consequência: ruína absoluta. O recheio riquíssimo de Monserrate desapareceu e é difícil de imaginar mas chovia dentro deste palácio magnífico e único no património nacional.

jardim #11

Em 1949 a Quinta de Monserrate é adquirida pelo Estado Português, no entanto, devido à falta de investimento o palácio e o jardim continuam o processo de deterioração, rápido e implacável. Hoje graças à força da opinião pública, que está mais informada, o Governo e a Câmara Municipal de Sintra constituiram-se como entidades responsáveis pelo património da dita cidade e na qual Monserrate se destaca.

Em 1992 foi criada uma associação de voluntários que pretende sensibilizar a opinião pública para o valor de Monserrate e a sua necessária preservação e manutenção. São os Amigos de Monserrate. Vale a pena espreitar o seu site e encontrar um leque bem mais vasto de informações sobre este local.

Jardim #12

Bibliografia: ATLEE, Helena – O Esplendor dos Jardins em Portugal. Ed. Inapa, 2008 / FREITAS, João Sande de; CONSTÂNCIO, Raul – Árvores de Monserrate. Ed. Inapa, 1997

Anúncios