PALÁCIO

…os jardins do Palácio de Cristal são uma entidade que vive com a cidade, mas que dela se retira pacatamente como se de uma jangada se tratasse; ou uma ilha; ou a própria arca de Noé, tal a quantidade e variedade de espécies animais e vegetais que vai carregando no dorso. (p.11) 

Palácio #1

 

Este espaço à margem da cidade e no coração dela surge de uma iniciativa de um grupo de burgueses entusiastas do Crystal Palace de Hyde Park em Londres. Entre eles, Alfredo Allen que forma a Sociedade Palácio Agrícola e Artístico, promovendo uma exposição agrícola em 1857 nestes terrenos dos campos da Torre da Marca. Inicialmente usufruto de apenas algumas famílias de elite da cidade, era um espaço burguês fechado ao resto da população residente do Porto. 

Os seus objectivos incluíam os jardins, uma zona de estufas para plantas exóticas, bem ao gosto dos ingleses, espaços para animais e uma academia de música. O projecto foi entregue ao arquitecto Thomas Dillen e os jardins, que chegaram até aos nossos dias quase intocáveis, ao paisagista alemão Émille David

Palácio #2

 

Esta baleia extraordinária e transparente, nas palavras de Mário Cláudio, e seu espaço circundante são inaugurados oficialmente a 18 de Novembro de 1865 com a presença do rei D.Luís acompanhado pela família real e alguns notáveis, entre os quais Fontes Pereira de Melo. 

O Palácio de Cristal era um edifício com 3 naves de 150 metros de comprimento por 72 de largura. Continha também elementos de granito na fachada, embora a sua estrutura fosse dominada pelo ferro e o vidro. Abrigou o berço das expos nacionais, a Exposição Internacional Portuguesa em 1865; e a célebre Exposição Colonial Portuguesa em 1934 sob a direcção de Henrique Galvão. Esta última continha aldeias com pessoas das colónias exibidas como selvagens e não diferentes dos outros animais do Parque. As mulheres semi-nuas eram chamadas de graças negras ou vénus negras

Palácio #3

 

O nosso jardim passou por fases de decadência e abandono. Uma das primeiras políticas para combater o fenómeno foi a  realização da Feira do Porto no seu perímetro. Outra, já nas mãos da Câmara do Porto que compra por 2 mil contos em 1933 o espaço para logradouro da cidade com fins desinteressados, foi a demolição em 1951 do velho Palácio de Cristal e sua substituição pelo actual Pavilhão Rosa Mota do arquitecto Carlos Loureiro, e a introdução da Feira Popular a partir de 1950 até 1990. Com a criação da Exponor nos anos 80, muitos dos eventos organizados pela Associação Industrial Portuense que decorriam no Pavilhão mudam para lá e segue-se outra fase de abandono. 

Palácio #4

 

A década de 90 é marcada pela vontade de devolver a dignidade ao Jardim. As medidas passam por: 

  • O ingresso gratuito
  • Os animais libertos das jaulas
  • Restauram-se os elementos patrimoniais (edifícios e jardins)
  • Construção do restaurante sob o Pavilhão
  • Construção de um edifício cultural no antigo espaço do Teatro da Feira
  • Recuperação das estátuas e fontes em ferro fundido originais que se encontravam nos armazéns municipais
Palácio #5

 

Hoje o Edifício Cultural do Palácio que aloja a Biblioteca Municipal Almeida Garrett, do arquitecto José Manuel Soares, traz aos jardins muita gente que aproveita uma escapadela para descontrair no verde, perante uma paisagem ímpar, onde o buliço da cidade tem também a sua presença junto da água e dos vários animais que por lá andam à solta. É uma conjugação feliz. É o último reduto dos românticos, das pessoas mais dadas a certos estados de alma, pois uma melancolia serena atravessa-nos e faz-nos pensar no que permanece e no que muda. E se há coisas que queremos que se alterem, há precisamente outras que não. A sua transformação trará somente um desvirtuamento daquilo que é o espírito do lugar, como os antigos acreditavam. Tirar a serenidade a este lugar é retirar-lhe o espírito, deixar que o recinto seja invadido outra vez pelas elites que reclamam as melhores vistas, é quebrar os laços com a cidade e mais uma vez favorecer os favoritismos de gente emproada e snobe. E esse não é o nosso Palácio. 

Fonte: MARMELO, Manuel Jorge – Palácio de Cristal: jardim-paraíso. Porto, 2000. ISBN 972-610-338-X 

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