RAUL BRANDÃO

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Raul Brandão # Henrique Araújo Moreira 1

Raul Brandão nasce em 1867 na Foz do Douro e morre em 1930 em Lisboa. As suas raízes tripeiras eram profundas, na sua obra Os Pescadores podemos sentir o saudosismo da terra que o viu nascer, como a memória de um tempo que não volta mais. Aqui está um trecho inicial que diz tudo ou quase tudo:

A Foz é para mim a Corguinha, o Castelo e o Monte com o rio da vila a atravessá-lo, e a Rua da Cerca até ao Farol. O que está para lá não existe… Só me interessa a vila de pescadores e marítimos que crescem naturalmente como um ser, adaptando-se pouco a pouco à vida do mar largo. E ainda essa Foz se reduz cada vez mais na minha alma a um cantinho – a meia dúzia de casas e de tipos que conheci em pequeno, e que retrato na memória com raízes cada vez mais fundas na saudade, e mais vivas à medida que me entranho na morte. O mundo que não existe é o meu verdadeiro mundo. (p.9)

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Raul Brandão # Henrique Araújo Moreira 2

Esta homenagem que lhe foi feita pela Cidade e pelo escultor Henrique Araújo Moreira data de 1967. Sem dúvida o estilo mais contido do escultor que, no entanto, retrata com honestidade a relação do escritor aos pescadores da Foz. A escultura mostra-nos ao mesmo tempo a tristeza desta gente que perde os seus entes queridos no mar largo, como a ternura do amparo nos momentos mais difíceis. Momentos estes que sabemos Raul ter assistido.

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Raul Brandão # Henrique Araújo Moreira 3

Jornalista desde muito cedo, Raul Germano Brandão observou a actualidade política e social, com a qual construíu as bases das suas reflexões filosóficas e morais. Definia a vida como uma mixórdia (hábitos ridículos, dor, ternura, ódio, sonho), um caos que é impossível transmutar num cosmos harmonioso. Por outro lado, a solidão moral do Homem no Universo é uma trágica realidade. O Universo é uma força, uma fatalidade inexorável, e Deus é uma vontade inconsciente, um Deus força, cego, absurdo. A vida é portanto absurda porque é o produto de uma mistificação. (…) o bem e o mal são os resultados fortuitos duma química natural. A vida é verdadeiramente uma selva, em que o homem é o lobo do homem. (p. 123)

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Raul Brandão # Henrique Araújo Moreira 4

Os Pescadores de 1923 e as Ilhas Desconhecidas de 1926 sobre os Açores mostram um amor pela Natureza, pelos costumes castiços portugueses e um respeito pelo trabalho da gente mais humilde. E aqui coloco mais um trecho d’Os Pescadores que prova a existência de golfinhos aqui na nossa Foz:

Vejo agora o barco adornado com o vento, a vela metida nos rizes e os homens estendidos nos bancos. A água diante de mim ondula como um véu diáfano, só frescura e transparência, só poeira verde que desmaia toda arrepiada… Fios delicados de algas bóiam ao sabor da onda e ao meu lado corre um veio mais escuro e profundo, quase negro, onde um bando de toninhas persegue, logo de manhã, a manta da sardinha. Os grandes dorsos azulados irrompem das águas, afundam-se e tornam a aparecer e a reluzir ao longe, todos molhados, num rasto de névoa a dissolver-se… Não há como este verde, que é hálito puro ao mesmo tempo; nem vida como esta vida, que surge intacta diante dos meus olhos deslumbrados. Reluz a esteira do sol e o primeiro voo das gaivotas corta o céu. (p. 20).

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Raul Brandão # Henrique Araújo Moreira 5

Mais palavras para quê?

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Raul Brandão # Henrique Araújo Moreira 6

Bibliografia:  BRANDÃO, Raul – Os Pescadores (Porto Ed., 1990) # FERRO, Túlio Ramires in COELHO, Jacinto Prado (dir.) – Dicionário de Literatura : literatura portuguesa,    literatura brasileira, literatura galega, estilística literária (Figueirinhas, 1997) ; vol. 1, p. 122-123

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