HENRIQUE ARAÚJO MOREIRA (1890-1979)

O SALVA-VIDAS

salva-vidas 1
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Quantos de nós já nos sentimos de alguma maneira aflitos em águas marinhas? Um salva-vidas, um último grito de esperança…

Esta escultura em bronze de Henrique Araújo Moreira, de 1937, retrata realisticamente um homem maduro, de músculos modelados no trabalho pesado e semblante tenso, para não dizer o rosto de alguém que assiste a uma tragédia e que pode apenas minimizar alguns estragos. O que não é pouco!

salva-vidas 2
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Henrique Moreira viveu na Foz do Douro e pôde assistir diariamente à labuta das gentes daquela zona, que sabemos muito ligada ao mar.

Na Avenida de Montevideu, este velho lobo-do-mar enquadra-se num conjunto de obras do escultor ligado às suas raízes, de origem humilde. Nasceu na Vila de Avintes a 9 de Maio de 1890. A sua mãe dedicava-se à produção de toucinho e o seu pai tinha sido tanoeiro. Mais tarde a família abre um pequeno estabelecimento. Uma mercearia.

salva-vidas 3
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Este negócio familiar nunca tentou Henrique que em 1905, com apenas 15 anos, ingressa na Academia Portuense de Belas-Artes, instalada à época no actual edifício da Biblioteca Pública Municipal do Porto.

O seu mestre de desenho foi José de Brito e na escultura Teixeira Lopes, com o qual constrói uma longa amizade. Como colegas de curso podemos aludir alguns nomes: Diogo de Macedo, Sousa Caldas, Manuel Martins entre outros.

Terminado o curso com uma excelente média de 17 valores, vai continuar o seu trabalho, primeiro, no atelier do seu mestre de escultura e amigo, Teixeira Lopes, deixando este uma marca profunda no seu trabalho.

salva-vidas 4
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Henrique Moreira nunca se desloca a Paris, capital artística das novas tendências, embora se mantenha informado por vias secundárias. Leva uma vida rotineira entre o atelier e o lar. Era um homem de grande capacidade para o trabalho.

As dificuldades económicas levam-no a fazer algumas cedências, dando fruto a um produto de nível inferior mas do agrado do seu público. O cuidado mais primoroso, ele reservava-o para as grandes encomendas, como esta escultura do salva-vidas.

salva-vidas 5
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Na sua obra dá-se o encontro de duas tendências, o Naturalismo e o Realismo. Escravo das formas naturalistas, Henrique Moreira pretendia sentir a vida pulsar debaixo dos panejamentos que cobriam as suas figuras.

Os temas iniciais com que o escultor se debate são marcados então pelo Realismo, os problemas e as questões sociais estão muito presentes, a pobreza e a miséria, a má sorte. São pois os trabalhadores humildes, todo um rol de figuras representativas da cauda da sociedade.

salva-vidas 6
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Já num segundo período são as características etnográficas do povo português, os seus costumes ancestrais que clamam a sua atenção. Peças com movimento e de execução espontânea.

Finalmente, numa última fase as figuras tornam-se pausadas, contidas no movimento, fruto de encomendas de imagens históricas, religiosas e literárias.

Henrique Araújo Moreira pela sua linguagem é um escultor que agrada ao Regime. Reflectindo-se essa faceta numa série de encomendas representativas do País em exposições internacionais.

Escultor profícuo, é na Cidade do Porto que se encontra a maior parte da sua obra, da qual se irá dando notas pontuais aqui neste blogue.

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Bibliografia: PAMPLONA, Fernando – Dicionário de pintores e escultores portugueses ou que trabalharam em Portugal. Civilização, 1988

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