YOSEMITE

032_3
Half Dome

“Climb the mountains and get their good tidings. Nature’s peace will flow into you as sunshine flows into trees. The winds will blow their own freshness into you, and the storms their energy, while cares will drop off like autumn leaves”.
São sábias as palavras de John Muir (1838-1914), escocês defensor da Natureza e que se encantou com a beleza de Yosemite. Este parque nacional situa-se na parte central da Califórnia, no Vale da Sierra Nevada, tem uma superfície de 3.083 km2 e é património da humanidade desde 1984.

Desde nova que sonho em visitar estes parques colossais americanos. Sou açoriana e tenho família próxima desse outro lado do Atlântico, daí que quando planeei uma viagem à Califórnia, há muito falada, fiquei entusiasmada por saber da existência dos seus vários espaços verdes protegidos, Yosemite à cabeça de todos eles em tamanho. Não é por acaso que é o segundo a ser declarado parque nacional, em 1890, logo atrás de Yellowstone (1872). Uma conquista dos seus vários admiradores, entre eles John Muir que através da escrita e estudo, numa verdadeira campanha de marketing, chamou a atenção do Governo Federal para a riqueza natural e histórica de Yosemite, para a necessidade da sua preservação e para os vários perigos que o parque enfrentava ou poderia enfrentar.

Com efeito, não obstante esta área ter sido registrada na acta do Congresso de 1864 “para uso público, como zona de férias e de recreio”, não existia nenhuma preocupação ecológica pois as paisagens naturais abundavam na América de então.

A beleza do lugar e a ambição do garimpo atraíram os primeiros visitantes brancos nos anos 50 do Século XIX, e com eles inauguraram-se os primeiros estabelecimentos de acolhimento e deram-se os primeiros confrontos com os indígenas. A chegada dos mineiros provocou conflitos com os nativos que resultaram na expedição punitiva do “Mariposa Battalion” sob a autoridade do Estado da Califórnia. Esta guerra terminou no extermínio duma tribo em 1851; dela o parque herda o nome.

Escritores, artistas e fotógrafos ajudaram a disseminar a fama deste lugar e hoje Yosemite recebe mais de 3.5 milhões de pessoas ao ano. Os meses quentes são os mais populares, mas o parque mantém uma série de actividades durante a estação fria, com pistas de ski e lagos gelados. A maioria dos visitantes, no entanto, limita-se a um passeio a pé ou em bicicleta na zona do Vale. Aqui estão centralizados uma série de serviços do parque e aqui também fica o célebre hotel de luxo Ahwahnee. Belíssimo mas felizmente há toda uma cartada de opções mais baratas! São também organizadas excursões de camioneta aos locais mais panorâmicos e populares. Fiz uma delas ao Glacier Point: impressionante vista sobre a meseta granítica da High Sierra e sobre o Vale, em que o Half Dome reina nos nossos sentidos. Uma cúpula de granito maciço que parece ter sido cortada ao meio como uma cebola e que se tornou no símbolo de Yosemite.

Outro rochedo famoso desta zona e que se crê ser a maior peça de granito do mundo (emerge do fundo do Vale numa altura de 914 metros), é o El Capitán. Os alpinistas prestam-lhe culto, foi aqui que se ensaiaram as primeiras escaladas livres. Este colosso é tão grande que tive dificuldade em detectar com os meus binóculos três esforçados homens que naquela altura o desafiavam. A primeira coisa que consegui ver foi um tubo que levavam dependurado com eles e para onde depositavam o lixo, o que inclui os seus excrementos. As regras impõem que se deixe tudo como se encontrou…

Os Rangers (Guardas Florestais) queixam-se que os visitantes levam frequentemente flores silvestres, plantas protegidas e, inclusivé, blocos de granito. O pior ainda é abandonar lixo nestas áreas e foi em Yosemite que vi um casaco desportivo abandonado numa pedra e já todo carcomido pela humidade, só não peguei nele porque não tinha espaço para carregá-lo.

Existe um plano de protecção aprovado em 1980 e que tem sofrido constantes melhoramentos para os quais têm contribuído vários debates públicos promovidos pelo Parque. Prevê reduzir, entre outras coisas, os equipamentos rodoviários para limitar esse tipo de tráfico, e aumentar a qualidade e o número dos trilhos pedestres. Considero mesmo que essa é a melhor forma de ver a imensidão daqueles bosques, daqueles prados e daquelas formas rochosas. Não faltam trilhos de vários graus de dificuldade e com diferentes tipos de recompensa. Abundam brochuras informativas sobre todos eles e podemos sempre pedir ajuda ao pessoal interno.

A determinada altura, o nosso guia-motorista do Glacier Point decidiu mostrar-nos algo: como não éramos muitos deixou-nos ir atrás dele, a pisar os mesmos sítios que ele pisava, até a uma pequenita clareira onde tinham desabrochado umas flores ao engano. Explicou ele que exactamente naquela altura do ano (estávamos na primeira semana de Novembro) os dias tinham a mesma duração que na Primavera, era por isso que algumas plantas se desorientavam. A sua sobrevivência era muito curta com a chegada rápida do frio e da noite, impiedosos.

Yosemite tem muitos pontos de interesse para além da sua plataforma granítica, sem dúvida majestosa: tem cascatas como a do “Véu da Noiva” com 190 metros, ou como o conjunto em dois patamares das Yosemite Falls com 739 metros no total, é pois a segunda cascata mais alta do mundo depois do “Salto do Anjo” (978 metros) na Venezuela; tem lagos glaciares de águas límpidas inscritos em prados de montanha que na Primavera se cobrem de flores e são bordejados por extensos bosques de coníferas.

Aqui também se encontram algumas espécies ameaçadas e não é assim tão raro um encontro com a “megafauna”. Os visitantes têm acesso a informação básica e precisa de como devem proceder nestes acasos. Se num trilho, num acampamento (ou até mesmo dentro de portas) se cruzarem com um urso, um “leão da montanha” (puma), nunca, mas mesmo NUNCA, virar-lhe as costas para fugir! Atirar-lhe pequenas pedras, dando-lhe sempre o espaço necessário para ele partir, tentar mostrar-lhe que somos um animal grande com o qual ele não deve querer confrontar-se: mostrarmo-nos o mais altos possível, até com a ajuda de casacos, mochilas ou o que tivermos à mão, se estivermos em grupo devemos juntarmo-nos e as crianças devem sempre ser pegadas ao colo, finalmente uns rugidos poderosos… tudo isto afastando-nos dele. Será possível ter todo este sangue frio? Ainda é pior no caso de existirem filhotes. O sentido de protecção é muito forte nestes casos. Se mesmo assim formos atacados, “fight back”!

Por incrível que pareça, os encontros mortíferos têm sido com os veados. Culpa exclusiva das pessoas que lhes querem fazer festinhas ou tirar-lhes uma fotografia muito próxima, ou ainda dar-lhes comida e aqui estão a infringir uma regra muito cara ao parque e importante na preservação da vida selvagem. Aliás, toda a comida que transportamos ou que abandonamos na tenda ou num veículo deve estar correctamente embalada em caixas próprias à prova de investidas violentas. Uma mochila não chega, os danados também já as reconhecem como fonte alimentar, por isso é perigoso abandoná-las no caminho! Além disso, o parque dispõe de contentores especiais para o lixo já a contar com as tentativas de assalto.

Numa das noites que passei no parque, alojada na casa de uns rangers conhecidos, dois racoons (quatis) invadiram-nos o átrio à procura de comida e deixaram tudo em pantanas, fora o susto que me pregaram a pensar que podia ser um urso. E porque não? Eles abrem portas e a nossa não estava fechada à chave. Aqueles zorros trapalhões e malandros entraram pela porta dos cães, as cadelas acabaram por afugentá-los e tudo acabou bem. O mesmo não se passou na porta ao lado. A vizinha, soubemo-lo no dia seguinte, tinha sido obrigada a socorrer-se da ajuda dos guardas florestais por ter sido realmente invadida por um urso na própria casa. Urso este que pelo caminho ainda investiu contra alguns carros estacionados por ali perto.

Em todos os finais de tarde vi veados portentosos e suas famílias. Descem até ao vale para se alimentarem dos desperdícios humanos. Para além da “megafauna”, mais rara, é fácil cruzarmo-nos com esquilos nos trilhos, de pêlo castanho ou riscados. Ouvem-se os pássaros, mas são mais difíceis de ver. A certa altura deparei-me com umas aves minúsculas que subiam as árvores aos pulinhos.

Em Yosemite, as grandes diferenças de altitude permitem a coexistência de um amplo espectro de vegetação. Há várias espécies de árvores, entre as quais está a famosa sequóia gigante. Um exemplo negativo do sacrifício da natureza em prole de interesses turísticos foi a construção do Wawona Tunnel Tree. Um túnel escavado em 1881 numa sequóia centenária. Passavam por aí, carruagens primeiro e mais tarde automóveis. Naturalmente, a árvore não aguentou o atentado e cai em 1969 durante uma tempestade de neve… Podem-se ver as sequóias em Mariposa Grove (cerca de 500 árvores), em Tuolumne Grove (cerca de 25), e ainda 20 em Merced Grove, esta zona é bastante mais calma porque se acede somente a pé. A árvore mais antiga do parque localiza-se em Mariposa Grove, é o Grizzly Giant, estima-se que tenha 2.700 anos e o seu tronco mede uns 10 metros de diâmetro.

Na época em que os primeiros brancos surgiram no parque a paisagem era mais aberta. Havia menos árvores, a floresta não era tão densa. Assim foi possível a entrada do “Mariposa Battalion”. Hoje é difícil imaginar como os cavalos puderam percorrer aquelas encostas. O guia explicou-nos que a floresta tem os seus ciclos e que até os incêndios, quando não são provocados pelo homem, devem ser integrados nesta sua autogestão. São positivos como fertilizantes e por isso também geradores de vida. Uma das políticas do parque é a da menor interferência possível no meio. Quando uma árvore cai, só será removida se obstruir uma estrada. Doutra forma é apenas uma árvore morta que tem em si propriedades enriquecedoras para o solo.

Uma curiosidade: como é que uma marta mata um porco-espinho? Depois de várias tentativas criativas da minha parte, lá me aproximei da resposta e o guia concluiu. Normalmente abre um buraco no chão no sítio que sabe que o ouriço caixeiro passa e esconde-se lá à espera. Ataca-o na única zona do seu corpo que não tem espinhos. A marta é dos poucos predadores deste animal. É genial esta artimanha!

Por todas estas razões e outras que farão parte da experiência de cada um é que vale a pena dar um pulo a este belíssimo parque natural se forem à Califórnia.

Anúncios