SANTA CLARA, A VELHA

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Numa manhã cinzenta, de chuva miudinha, fomos conhecer um monumento de referência na cidade do Mondego. Um símbolo da resiliência dos homens face a condições adversas, sociais e naturais.

A história deste convento está estreitamente ligada à vontade férrea de duas mulheres que lutaram pela sua implantação. A primeira, uma dama da nobreza coimbrã, de nome Dona Mór Dias, ainda no século XIII, decide seguir o caminho proposto por Santa Clara e fundar uma casa de monjas, dedicando-a também a Santa Isabel da Hungria, tia-avó da segunda mulher desta narrativa. Contudo, os seus intentos vão provocar forte oposição na comunidade que a acolhera em primeiro lugar, o Convento de São João das Donas que estava na dependência do Mosteiro de Santa Cruz. Parece que Dona Mór não abandonou a sua condição de leiga quando se recolheu em São João das Donas, embora os crúzios combatessem esta ideia, alegando direitos sobre a sua pessoa e bens. Apesar dos fortes entraves, Dona Mór consegue lançar a primeira pedra a 28 de abril de 1286 e deslocar-se posteriormente para a margem esquerda do Mondego, com algumas donas que a seguiram. A guerra com os crúzios iria prolongar-se por cerca de trinta anos, até para além da sua morte, tendo estes frades alcançado a sua excomunhão e a extinção deste primeiro convento a 2 de dezembro de 1311. Dona Mór Dias era uma mulher com influência e posses, à escolha do lugar para a fundação da sua casa de clarissas não foi alheio o facto de ela possuir terrenos naquela área, condicionantes importantes também para os seus opositores. Dona Mór morre em 1302, é sepultada na casa que fundara, mas os crúzios reclamam igualmente que o seu corpo deveria ser guardado no Mosteiro de Santa Cruz, reclamação que não irá ser atendida. Em 1307, o bispo de Lisboa transferiu para a Rainha D. Isabel a responsabilidade de conservação e proteção do Mosteiro, que sabemos ter sido extinto em 1311.

A Rainha é a segunda mulher de vontade férrea desta história. Fazendo uso do seu poder de mediação, Isabel de Aragão desempenhou importantes papéis na diplomacia do País, consegue do Papa Clemente V a autorização para uma “refundação” desta casa, classificando-a como uma nova fundação, evitando assim mais conflitos com Santa Cruz. As obras do novo mosteiro iniciam-se em 1316, agora sob a vigilância da Rainha e com os seus contributos, além de estéticos, patrimoniais. O gótico era naquela época a vanguarda artística, e estava a ser introduzido no nosso País por Cister e precisamente pelas novas Ordens Mendicantes. A Rainha vai adotar algumas dessas novas soluções construtivas no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, embora com algumas especificidades, como veremos. É chamado a esta empreitada o arquiteto régio Domingo Domingues, responsável pelo claustro de Alcobaça, onde este novo estilo tinha sido implantado. A sua ação vai ser interrompida com a sua morte, continuada numa segunda campanha construtiva pelo mestre Estevão Domingues que completou a Igreja e levou a cabo as obras do grandioso claustro. O cunho da Rainha nesta ambição edificadora não é de menor importância, para a qual também terá contribuído a sua residência nas imediações do Convento, num Paço que mandou erigir, habitando-o após a morte de D. Dinis em 1325. A sua ação caridosa e empreendedora vai aqui materializar-se num hospital, ao lado do seu Paço e do Mosteiro, que podia albergar “quinze homens e quinze mulheres pobres, o que é verdadeiramente excepcional para a época em que hospitais, albergarias ou gafarias tinham capacidade para acolher apenas uma meia dúzia de pessoas e nem mesmo o Hospital Novo, bem mais tarde criado por D. Manuel, com capacidade de apenas dezassete camas, se lhe assemelhava.” [p.30/Maria Helena da Cruz Coelho]

A igreja do exterior e o claustro de Estevão Domingues: 1. Fachada nascente, com os vestígios de capela-mor poligonal, ladeada por duas capelas quadrangulares no exterior e poligonais no interior; 2. Fachada norte da igreja, entrada dos leigos; 3. Fachada sul com campanário e acesso interno das freiras à igreja, vista sobre o grandioso claustro.

A quase inexistência em Portugal de conjuntos monásticos medievais femininos conservados, converte o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha de Coimbra num objeto de estudo excecional. Durante as obras mais recentes de reabilitação do Monumento Nacional, equipas transdisciplinares de investigadores desenvolveram estudos de âmbito arqueológico que irão permitir levantar um pouco mais o véu do quotidiano destas mulheres. Precisamente este ano decorreu uma exposição no Centro Interpretativo do Mosteiro, que teve por base os inumamentos encontrados neste lugar. Não nos devemos esquecer que o conjunto esteve soterrado séculos, invadido periodicamente pelas cheias do Mondego, que acabaram por conduzir ao seu abandono, primeiro pelas clarissas que resistiram aqui até 1677, depois pelos seus sucessivos ocupantes.

Objeto de uma intervenção durante o Estado Novo, por ter contido os restos mortais da Rainha Santa Isabel (com toda a carga simbólica desta ligação), a cargo da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), que submeteu o monumento a obras de restauro pautadas pelas ideias novecentistas defendidas por Eugène Viollet-le-Duc, que pretendiam devolver a integridade original às construções medievais, depurá-las de acrescentos posteriores, num dogma de “unidade de estilo”, logo a seguir é votado ao esquecimento, uma vez que o problema das águas não se resolveria.

Arcos e pilares no interior da igreja: 1. Nave central com visão da capela-mor poligonal; 2. Frestas de dois lumes nos alçados laterais; 3. e 4. Arcos torais e formeiros, e pilares de colunelos adossados, rematados por capitéis que são o suporte e o arranque dos arcos que se cruzam nas abóbadas superiores.

Mais próximo de nós, em 1991, iniciou-se a empreitada monumental do resgate deste complexo às águas do Mondego. Numa primeira fase, substituiu-se o telhado da igreja, realizaram-se trabalhos de limpeza e a alteração de algumas pedras danificadas; num segundo momento procedeu-se ao desenterramento da igreja e da área adjacente, com um sistema de bombagem permanente das águas. Quando se pôde caminhar no seu pavimento primitivo, criaram-se as condições para um levantamento rigoroso do espaço.

Chaves decoradas das abóbadas laterais de arestas: 1. Em flor; 2. Em flor com elementos zoomórficos.

Estes trabalhos revelaram a singularidade arquitetónica da igreja, pois esta afasta-se “tanto em planta, quanto em alçado e em sistema de cobertura” [p.19/Francisco Pato de Macedo] das restantes igrejas construídas pelos Mendicantes em Portugal e inclusive de todas as outras igrejas góticas nacionais suas contemporâneas: a ausência de transepto, com três naves longitudinais que se encontram quase à mesma altura, e com o abobadamento integral. Acrescente-se a esta originalidade, as adaptações que o templo sofreu ao longo do tempo devido à elevação do nível das águas que transformaram o claustro e o piso inferior da igreja numa autêntica cisterna, obrigando à construção de um piso intermédio e de uma capela funerária maneirista, dos inícios do século XVII, para proteger e acolher o sarcófago da Rainha, que escolheu Santa Clara-a-Velha como sua derradeira morada.

Abóbada de arestas da nave lateral sul, com arcos cruzeiros e arcos torais bem demarcados, e arcos abaulados do coro baixo. Ao lado vê-se um bocado da abóbada de berço apontado da nave central.

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A escavação da zona envolvente do lado sul descobriu um claustro (que estava submerso desde o século XVIII) de enormes dimensões, não apenas nas suas fundações, mas nas suas estruturas arquitetónicas até ao nível dos arcos e suportes da cobertura. Alguns colunelos e capitéis mantinham-se no lugar original. Foi também encontrado o lavabo, conhecido através de elogiosas referências textuais, que se encontrava à entrada do refeitório, já a avançar para o pátio interior do claustro. Estes trabalhos reafirmaram a convicção de manter a seco o património desvelado.

Em setembro de 2001, o IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico) lança um concurso público internacional para a elaboração de um projeto de valorização do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, no qual se integrariam instalações para um núcleo expositivo, com auditório e dependências logísticas de apoio a investigadores. O concurso foi arrematado pela equipa formada pelos arquitetos Alexandre Alves Costa e Sérgio Fernandez. O Centro Interpretativo foi aberto ao público a 18 de abril de 2009, no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. O Mosteiro de Santa Clara-a-Velha e este projeto de recuperação, animação e investigação foram contemplados com o importante prémio Europa Nostra 2010, cem anos depois deste património ter sido classificado como Monumento Nacional pelo decreto de 16 de junho de 1910.

Detalhes decorativos: 1. Inscrição; 2. Arcossólio do piso inferior; 3. Vestígios de azulejos hispano-árabes com os quais a igreja foi revestida na época manuelina, devido à incursão das águas; 4. Cruz Pátea, símbolo da Ordem do Templo.

Infelizmente, em 11 de janeiro de 2016, as águas do Mondego voltaram a invadir este local, apesar da cerca-tampão construída para o proteger. A EDP deu ordem para abrirem as comportas da Barragem da Aguieira, devido às chuvas torrenciais que caíram na região. A 13 de fevereiro, uma nova inundação. A Direção Regional da Cultura do Centro (DRCC) frisou que houve falta de coordenação e inação na abertura da barragem, uma vez que ninguém avisou a DRCC, a instituição que gere hoje este equipamento, do risco de inundação. Esta falta de diálogo entre instituições resultou em prejuízos materiais, que possivelmente teriam sido evitados com uma comunicação efetiva.

Rosácea em estrela de oito pontas e capela funerária, em estilo de arco triunfal, na bifurcação do coro-alto com o espaço dos fiéis, onde se encontrava o túmulo da Rainha pouco tempo antes de ser trasladado para o novo mosteiro das clarissas em Coimbra, Santa Clara-a-Nova.

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2016 é um ano de comemorações para este lugar: passaram 730 anos sobre a colocação da primeira pedra no Convento de Dona Mór Dias e 700 anos sobre o início das obras da refundação do Mosteiro pela Rainha Santa Isabel. A Rainha faleceu a 4 de julho de 1336 em Estremoz, há 680 anos e também este ano se sublinharam os 500 anos da sua beatificação, com a possibilidade de contemplação da sua mão direita, praticamente intacta. Como Isabel de Aragão perdeu a vida longe do lugar onde desejava ser sepultada, o seu corpo foi preparado para a viagem que se seguiu até Coimbra, até Santa Clara-a-Velha, uma jornada que durou sete dias consecutivos em época estival. Ressalte-se que nesta travessia terão ocorrido prodígios e curas para alguns que se cruzaram com o corpo da Rainha, e há descrições de uma fragância, “um nobre odor que nunca ninguém tinha visto”[p.31/Camila Lisita Rezende]. Logo após a sua morte, o seu culto ganha vigor, uma intercetora próxima dos portugueses nos desígnios divinos, e conhecida pela sua bondade como nos demonstra esta descrição de Vitorino Nemésio: “Isabel, tornada dos cuidados do filho à sua posição mais pessoal – que era direita e como uma oliveira que resolve tombar os frutos na manta, sem a ajuda de escadas – pegava em si e descia. Os homens da Rainha ficavam encostados e corridos; punha-se a cáfila de rojos. E num ai choviam para ali os pães, o saco dos maravedis trazido por Afonso Martins; ouvia-se um grunhido de gozo e barriga cheia, que o pinhal acompanhava. Isabel fazia um gesto tão simplesmente imperioso que aias, escudeiros e homens entravam no paço em silêncio. Então escolhia a mão mais miserável de um gafo, deixava-lhe um beijo e recolhia.” [p.51/Vitorino Nemésio]

Arco monumental maneirista de pedra ançã, século XVII, encomenda do Bispo de Coimbra D. Afonso Castelo-Branco. Frontão interrompido e rematado pelo brasão da Rainha, em que se encontram representadas lado a lado as armas portuguesas e de Aragão, ladeadas por anjos custódios. É construído para albergar o novo sarcófago da Rainha Santa Isabel, também encomenda do mesmo bispo, uma arca tumular de prata e cristal que se pode visitar hoje na capela-mor de Santa Clara-a-Nova.

O Mosteiro de Santa Clara-a-Velha reabriu, após uma limpeza geral, a 31 de março. Merece claramente uma visita. Os restos mortais da Rainha foram trasladados para o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, juntamente com as clarissas e o primitivo ataúde de Mestre Pêro, um escultor que se presume aragonês como Isabel, no entanto permanecem muitas incertezas quanto à sua origem e às razões por detrás da sua vinda para Portugal. O seu trabalho foi uma referência para a renovação da escultura gótica em Portugal. Algumas das suas esculturas encontram-se expostas no Museu Nacional Machado de Castro, assim como peças únicas que pertenceram ao tesouro da Rainha e os Painéis do Tríptico da Paixão de Cristo que enquadravam a capela-mor da igreja, uma encomenda de D. Manuel I a Quentin Metsys, reconhecido pintor flamengo no seu tempo.

Em Baixo-relevo: 1. Carranca ou mascarão; 2. Figuras antropomórficas geminadas; 3. Decoração no intradorso do arco tumular.

Santa Clara-a-Velha evoca também dois outros acontecimentos históricos, um de celebração e outro no polo contrário, uma boda e uma morte: o casamento de el Rei D. Duarte e o assassinato de Inês de Castro.

Portal da fachada norte da igreja, de arcos quebrados ou em ogiva, com capitéis vegetalistas e zoomórficos. Entrada dos fiéis externos ao convento ou porta dos leigos.

Um lugar mítico e lendário, onde igualmente se ensaiam os novos processos construtivos. Uma estética entre uma igreja robusta ainda a lembrar o românico e estes novos progressos arquitetónicos à procura de outra luz e de outra dimensão, uma outra visão do mundo que emergia. Numa época em que as cidades se começam a afirmar, e os valores feudais do antigo regime a serem colocados em causa lentamente, e neste preciso lugar duas mulheres bateram-se por uma causa, um outro futuro mais humilde e reservado, abrigado do século, espiritual, solidário. No entanto em Santa Clara-a-Velha, talvez por ser um convento com origem régia onde a própria Rainha vestiu o hábito de clarissa sem professar votos (assim continuava a ter o domínio sobre o destino dos seus bens), não se renunciariam totalmente as comodidades que um certo estatuto social trazia, basta pensarmos nesse grandioso claustro trapezoidal, ao mesmo tempo prisão e paraíso na terra, de dimensões irregulares, mesmo assim o maior da sua época, ou determos o olhar nos objetos das mulheres que aqui moraram e acabaram os seus dias, nas muitas exposições que o Centro Interpretativo do Mosteiro de Santa-a-Velha ainda terá para nos revelar.

No Centro Interpretativo: 1. São Francisco representado com túnica presa na cintura por uma corda de três nós, simbolizando os votos de pobreza, obediência e castidade. A presença do crânio evoca a brevidade da vida terrena, reflexão sobre a penitência e a morte; 2. Dragão, símbolo do Mal e das suas tentações. Seria uma bica do tanque central do claustro. Peça em calcário do século XVI; 3. Cristo.

Ainda no Centro Interpretativo: 1. Estatuária; 2. Cerâmica; 3. Peças em vidro; 4. Cabeça feminina, fragmento de estátua encontrado nas escavações do claustro. Pedro Flor avança a hipótese, por semelhança estética, do seu escultor ser Nicolau de Chanterene, um escultor francês que trabalhou sobretudo na Península Ibérica na primeira metade do século XVI.

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Vista do Centro Interpretativo para a igreja do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, para a fachada sul com campanário.

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No Museu Nacional Machado de Castro (MNMC), encontra-se exposto este Tríptico da Paixão de Cristo (1514-1517) que estava a decorar a capela-mor da igreja do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Uma encomenda de D. Manuel I, para as clarissas de Coimbra, a um pintor flamengo que possuía uma das oficinas mais importantes e produtivas do seu tempo: Quentin Metsys. O Tríptico encontra-se hoje parcialmente destruído, do seu painel central restou apenas esta primeira figura da Virgem. Na face exterior dos volantes, que se veriam quando o Tríptico estivesse fechado, mostra-se uma Anunciação, representada nas duas imagens seguintes bastante corroídas pela humidade, mas que lhe confere um lado fantasmagórico e belo ao mesmo tempo.

Ainda no MNMC, encontram-se várias peças do Tesouro da Rainha doado ao Mosteiro de Santa Clara e entre as quais se pode admirar esta Virgem-relicário. O Menino Jesus aponta para o seio direito que nos apresenta uma abertura para a colocação da relíquia. Esta seria muito provavelmente um pó que simbolizava o leite materno da Virgem. Uma relíquia conhecida desde o século XII, mas bastante difundida no século XIII. Hipótese avançada pela investigadora Giulia Rossi Vairo, no programa de divulgação do nosso património, Visita Guiada.

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FONTES: Revista Monumentos, nº18 (Francisco Pato de Macedo, Maria Helena da Cruz Coelho); Isabel de Aragão, Rainha Santa de Vitorino Nemésio, INCM, D.L. 1994; Convento de Santa Clara-a-Velha em Coimbra: tempo submerso, textos de Fernando de Azevedo e Pedro Dias, Bertrand, 1997; Mosteiro de Santa Clara-a-Velha: pela mão de Isabel – passos para um turismo ibérico, de Camila Lisita Rezende, Universidade de Coimbra, 2015; Visita Guiada de 17 de março de 2014, apresentada por Paula Moura Pinheiro com Giulia Rossi Vairo; Imagens da cidade – os fundos de arquitectura na escultura retabular em pedra do Renascimento em Portugal (1500-1550) de Pedro Flor; SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitectónico; Museu Nacional Machado de Castro, coord. Ana Alcoforado, coleção Museus de Portugal nº7, QuidNovi, 2011.

 

SÃO BARTOLOMEU NA FOZ

O Cortejo do Traje em Papel regressa este ano a uma quarta-feira, mas no dia do Santo a 24 de agosto. Uma manhã de trabalho para alguns, que não deve impedir os mais entusiastas de rumarem à Foz do Douro para regalarem o olhar nas cores e na boa disposição do desfile que entronca no mar. As imagens são do Cortejo de 2014.

P.S.: As minhas desculpas aos leitores deste blogue, segui uma notícia que apontava a data do Cortejo a 24 de agosto e este veio a realizar-se a 21 de agosto, no horário habitual, um domingo como é sua tradição. Achei estranho ser a uma quarta-feira, mas era possível, sendo o dia do Santo. (21.08.2016)

CARNAVAL EM ALEXANDRIA

Mas o que imprime a sua marca ao Carnaval, o seu espírito enganador, é o dominó de veludo – conferindo aos que o usam o anonimato a que todo o homem aspira no fundo do seu coração. Tornar-se anónimo, no meio de uma multidão anónima, sem revelar nem sexo, nem origem, nem mesmo a expressão do rosto – porque a máscara deste hábito de frade louco só descobre dois olhos, brilhando como os olhos de uma muçulmana ou de um urso. Nenhum traço identificador; nem mesmo o contorno do corpo se desvenda. Seios, coxas, faces – tudo desaparece. E escondido sob o hábito carnavalesco (como um desejo criminoso no coração, uma tentação irresistível, um impulso que parece predeterminado) jaz o germe de qualquer coisa: de uma liberdade que o homem nem sequer se atreve a sonhar. O mascarado sente-se livre de fazer o que lhe aprouver. Todos os crimes impunes da cidade, todos os casos trágicos de confusão de identidade, são o fruto do Carnaval; e por outro lado muitas aventuras de amor se atam e desatam nesses dias em que nos libertamos do selo da personalidade, da servidão das nossas pessoas. Uma vez dentro da opa de veludo, a mulher perde o marido, o marido perde a mulher, o amante a bem amada. (…) Mas engano-me numa coisa – há um elemento que vos permite identificar o vosso amigo ou inimigo: as mãos.

In Baltazar de Lawrence Durrell (Quarteto de Alexandria)

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